O ônus da cadeira

A grande e maravilhosa cadeira de chefe.

Geralmente maior, mais confortável, mais aerodinâmica e suntuosa – talvez pra aguentar um corpo cansado de tanta coisa pra administrar ao mesmo tempo; tanta gente pra atender, tanto problema pra resolver, tanta política pra fazer, tanta decisão pra tomar.

Bem-vindos à liderança real.

Assim como a maternidade, a liderança é cercada de mitos e supostas benesses incontestáveis. O salário maior. O crachá maior. O status melhor. O carro, a autonomia, as portas que se abrem, o fim da invisibilidade: finalmente você conseguiu ser alguém relevante na cadeia alimentar.

O lugar que quase todos querem é o mesmo que faz quase todos se perguntarem WTF estão fazendo ali, principalmente nos primeiros anos de gerência, pra ser mais exata. Até virar gerente, todo o resto parece brincadeira de criança.

Tendo que demitir pessoas. Cortar custos. Falar três idiomas e pilotar um Excel com todas as macros que automatizam tudo, não erram e te fazem ganhar tempo. Construir Power Points de impacto. Ter boa oratória. Ler todas as revistas da moda. Sair no Trapézio da Exame. Ser capa da Você S/A.

E, claro, QUERER estar ali. Sorrindo. Resiliente. Com boa atitude. Bom comportamento. Sendo um exemplo irretocável de líder, nunca de chefe. Deparando-se com memes no Linkedin e fingindo que não é com você.

Importante também é parecer ser, como a mulher de Cesar.

O que ninguém te conta é que você vai chorar no banheiro por algum tempo depois de fazer a sua primeira demissão individual, porque você se importa de verdade com as pessoas. E, em algum momento, você vai chorar por alguns dias depois de fazer a sua primeira demissão em massa, porque é claro que a culpa é só sua.

Que você vai morder o lábio de raiva quando receber sua primeira imposição top-down. Quando o seu suposto crachá não servir pra nada e perder pro crachá maior de alguém. Que você não vai saber o que fazer quando todo mundo te perguntar se a fusão realmente vai acontecer ou se a lista de corte já foi fechada. Que você vai se angustiar quando alguém da sua equipe (ou a equipe inteira) começar a fazer operação tartaruga pra ser mandado embora porque quer a multa do Fundo.

Que você vai querer matar um funcionário quando descobre que ele tá roubando.

Ninguém te avisa que a cadeira é confortável também pra te abraçar em dias muito difíceis. Que aquele carro bacana também é a cápsula na qual você se mete no meio da Marginal pra ficar em silêncio por alguma decisão mal tomada.

E não me venham os gurus contemporâneos levantar a bandeira de que isso não é vida e que esse sofrimento é uma perda de tempo e que — não precisa.

Porque quem nasceu pra ser líder simplesmente sabe que esse é o caminho. E vai nele até o fim, porque tem a certeza de que pode fazer a diferença pra alguém. Porque sente que vale a pena.

Que nem a maternidade.

Procure conhecer o ônus da cadeira na qual você senta. Isso pode te poupar lágrimas e te levar a um lugar dentro de si muito mais iluminado e feliz.

Ana Gomes é Head de RH para a América do Sul na Solera e sustenta iniciativas de diálogo com líderes e mulheres de uma forma geral. Mais em http://www.antigonna.com.br

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