Porque temos adultos mal-educados

Funcionários, líderes, parceiros, olhe à sua volta: certamente você se lembrará de alguém.

Muito se fala em caráter, compaixão e amor ao próximo. No mundo corporativo, são conceitos que também queremos encontrar no trabalho em equipe, no respeito aos microssistemas internos de toda empresa e, mais ainda, no famoso vestir a camisa – que dispensa maiores explicações.

Tudo isso exige uma dose generosa de colaboração e, para colaborar, no fundo, precisamos de duas coisas elementares: gostar da(s) outra(s) pessoa(s) envolvida e, acima de tudo, confiar nela(s). Agimos quase que por institnto, construindo ambos os sentimentos a partir de nós mesmos e da nossa interação com o mundo; a partir do comportamento do outro e de como o recebemos e assim por diante.

Não é algo simples. E, retrocedendo mais um pouco, divido um pensamento particular com você: pra mim, a raiz de tudo está na educação, aquela, famosa, “que vem de casa”. Tenho certeza de que você vai saber qual é.

Eu tenho dois filhos. O mais velho, adolescente, é elogiado em pequenas interações cotidianas por fazer o que julgo ser sua obrigação – ser educado com as pessoas à sua volta. Não falo de grandes estratégias, mas sim, do por favor / obrigado / com licença além de, genuinamente, sorrir e enxergar o outro.

O mais novo, saindo da primeira infância, naturalmente está em fase de aprendizado. E, como um dos traços dessa nova geração, tem a tendência de viver voltado para si, imerso na individualização do seu pequeno mundo. E, aqui, o exercício da educação é árduo, diário, hercúleo.

Guilherme entra no elevador cheio e não dá bom dia. Eu o questiono e ele cumprimenta. Guilherme chega na escola e o inspetor ajuda com a mochila, ele não agradece. Eu o questiono e ele solta um “obrigado” ora seco, ora efusivo. É um menino carinhoso à sua maneira, mas econômico com as demonstrações sociais de pequenos afetos. Sim, considero educação um carinho para com o outro, um importar-se que pode fazer a diferença.

A questão é que o Guilherme não me preocupa nem um pouco.

Ele está no papel dele, pra idade dele; e eu, bem, eu estou no meu papel de mãe, nem sempre padecendo no paraíso, mas é o que é e somos todos felizes desse jeito.

A questão que me impressiona é a reação dos adultos a uma criança já crescida o suficiente para ser educada, mas que, a princípio, não o é. Explico: com frequência, ao questionar o Guilherme nesses momentos de apagão social, imediatamente um adulto se compadece e já apresenta uma desculpa pela criança – “é que ele está com sono”. “É que ele está distraído”. “É que ele não me viu aqui.”

Estar com sono ou distraído ou qualquer outra coisa não é desculpa para não ser educado. Também educadamente, digo isso ao Guilherme e ao interlocutor, sem deixar de sentir um incômodo grande nessa dinâmica cotidiana – porque é isso que constrói um ser humano e, consequentemente, um cidadão.

Só depois disso é que temos um funcionário.

O que percebo, portanto, é uma proliferação de pequenas concessões que, mais tarde, serão transformadas em cobranças daquilo que não foi ensinado um dia, o que torna a coisa toda bastante incongruente.

Temos adultos mal-educados porque os próprios adultos são coniventes com pequenos desvios inofensivos, mas não se dão conta de que eles mesmos serão os herdeiros do que, no futuro, vão classificar como “o mal dessa nova geração”. Não percebem, todos, que também fazem parte do contexto para a educação dos seus e dos outros.

Porque eu acredito (de verdade) que, dessa micro-educação, decorrem a gentileza, a empatia, o perceber a outra pessoa como alguém merecedora de atenção e cuidado; como alguém merecedora, exatamente, dos mesmos direitos que você. Decorrem o caráter, a compaixão, o respeito, o transmitir de confiança e tudo o mais que sustenta as nossas relações interpessoais.

E só depois disso, muito depois disso, é que podemos ter um time que veste a camisa.

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