H(ell)ome Office

Trabalhar em casa pode ser, algumas vezes, tudo o que você não quer na vida – será que o seu funcionário quer?

Você sabe que um assunto finalmente ganhou relevância quando ele aparece no Jornal Nacional. Não seria diferente com o Home Office, claro. No fim de Julho, uma matéria mostrou a iniciativa do Tribunal de Justiça de São Paulo e a repercussão foi imediata: fanpages, sites, publicações, e, de repente, trabalhar em casa parece ter se tornado a solução mágica para todos os problemas laborais do país.

Segundo uma pesquisa realizada em 2014 pela SAP Consultoria, das 200 empresas de diversos segmentos que foram avaliadas, 36% já contam com a modalidade e o destaque vai, obviamente, para aquelas voltadas a serviços de Tecnologia: 19,3% do total.

Por sua vez, uma pesquisa da Catho, no início de 2015, revela que 37,2% dos brasileiros realizam parte de sua jornada em casa, até três vezes por semana, de acordo com respostas espontâneas em seu site. Dados da Income Opportunities Magazine dizem que 25 milhões de americanos e 30 milhões de europeus já atuam dessa forma – nos EUA chamamos de Smart Working e, na Europa, de Workplace Flexibility. Ou seja: não estamos sozinhos.

Com o conhecimento do contexto, precisamos ter em mente que, muito antes disso tudo virar assunto, profissionais liberais e autônomos já viviam essa realidade. Agora, o mundo corporativo também experimenta aderir, porque há muitas vantagens operacionais, além de ser vendido como algo lindo para o funcionário: sem trânsito, sem banheiro fedido (a menos que você não lave o seu), sem coleguinhas atrapalhando, com produtividade lá em cima e sem precisar gastar tanta roupa – um pijaminha delícia e tá tudo certo. Comida caseira fresquinha. A paz.

E é aqui que eu entro com esse texto.

Há quatro semanas estou trabalhando integralmente em casa. E, sim, é ótimo em vários aspectos. Mas, se fosse pra falar o que todo mundo já sabe, não precisaria de mais uma pessoa levantando a bandeirinha do ‘Ei, venha você também!’. Não.

O que pretendo, agora, é te dizer que fazer Home Office pode ser um inferno. Muito ruim. Desesperador, insuportável, insano.

  1. A Vap do vizinho (ou a sua mesmo): as áreas comuns do seu prédio não se limpam sozinhas, nem as do seu vizinho. Mesmo que seja uma casa, existe aquela rotina de passar a Vap no quintal – imagine uma Vap gigante, para condomínios, em operação por toda uma manhã. Agora, imagine duas. Ao mesmo tempo. Pra quem a gente liga pra reclamar? Dá pra pedir pra desligar? Só enquanto eu termino esse relatório? Só até o fim desse texto? O que nos leva ao segundo item;
  2. Obras para pior atendê-lo (às vezes a sua mesmo): em São Paulo, prédios brotam do chão a todo momento. Ou são substituídos pelas reformas intermináveis. Qual a regra dos condomínios para fazer esse tipo de coisa em casa? Segunda a sexta, horário comercial. Exatamente: o mesmo que o seu. Isso vale também para mudanças, entregas, etc. Mas não é só isso;
  3. As crianças barulhentas (ou as suas mesmo): crianças estudam por somente um período e nem todas ficam o dia inteiro no colégio. Sempre tem uma babá, uma tia, uma avó carinhosa pra ficar com elas… EM CASA. E, como tem as que estudam de manhã e as que estudam à tarde, durante todo o dia ouvimos a bola, os jogos, os gritos, os xingamentos e outras coisas na quadra do prédio ou na rua em frente – até que todas se juntam, à noite. Porque…
  4. A dinâmica do dia em uma área residencial (a sua, no caso): quem trabalha fora não imagina o que acontece em casa no período de sua ausência. Além disso, as estruturas não são feitas para garantir silêncio, temperatura adequada, tudo aquilo que a gente nem percebe em um bom escritório. E, por falar nisso;
  5. Apertem os cintos, a internet sumiu (sim, a sua mesmo): sua conexão cai. Seu micro dá pau. Sua luz acaba. NÃO TEM UM HELPDESK PRA LIGAR. Nada. Você chora por dentro e pede perdão, mentalmente, a toda a equipe de TI que, um dia, você menosprezou. Eles são heróis. Eles são vida.

E é sempre nesses momentos que eu penso: Graças a Deus eu não votei pelo corte de água durante o dia na última reunião de condomínio. Era só o que me faltava.

Então, antes de pensar em mandar o seu funcionário para casa (no bom sentido), pense nisso. E investigue melhor se essa é, de fato, a melhor opção.

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2 pensamentos sobre “H(ell)ome Office

  1. Achei interessante o texto mas não concordo com os pontos que foram apresentados. Se trabalharmos em um escritório normal, que teremos que ir todos os dias, perder tempo no trânsito, etc etc etc, e que não esteja preparado para a atividade comercial, teremos todos os problemas que você listou (talvez não as crianças, certo?). O Home Office só funciona se você tiver o mesmo equilíbrio no espaço destinado a sua atividade comercial. Se tiver isolamento acústico mínimo, se tiver infra-estrutura necessária (no-break, link de internet redundante, celular se o telefone falhar, etc..). Claro que isto tem um custo, mas qual será que custa mais? Gastar com transporte, alimentação e roupas no dia a dia de um escritório tradicional ou em casa com a infra necessária? Acho que vale a pena a reflexão.

    Abcs

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    1. oi vinicius!
      No fundo eu achei que a sua discordância é, na verdade, uma concordância de que essas coisas existem e seus efeitos devem ser prevenidos… A ideia do texto foi, justamente, alertar os futuros entrantes na modalidade a ter noção das rotinas e dos problemas que podem surgir – mas de forma alguma o trabalho pode ser prejudicado e concordo que vale muito a pena, quando colocamos na conta os benefícios. Um abraço!

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