Uma ameaça chamada Anonimato

Incentivar o esconde-esconde corporativo é mais perigoso do que parece

 

Semana passada minha equipe e eu fomos surpreendidas por uma nova ferramenta de um grande portal que, com pompa e circunstância, anunciava uma “nova” funcionalidade compulsória para seus clientes corporativos: uma página que “testemunhos” de profissionais ativos ou ex-profissionais da empresa, sobre a experiência de trabalhar para aquele CNPJ – também conhecido como “o Empregador Lobo-mau”.

Eu, no caso, sou um cliente corporativo. Ou, se preferir, uma Empregadora Lobo-mau.

Antes de tirar conclusões, fui conhecer a página, afinal, toda novidade é bem-vinda até que se prove o contrário. Entrei em todos os links. Li todas as menções. Conheci minha classificação e, a despeito da positividade ou negatividade de tudo isso, muita coisa me incomodou ali, mas escolhi questionar uma delas.

E, aqui, compartilho minha mensagem para o grande portal:

“[cumprimentos e justificativas iniciais]

[…], uma coisa me incomodou sensivelmente: logo no início da página, vocês colocam a frase “As opiniões são de pessoas que trabalharam na empresa e não a opinião deste grande portal (suprimi o nome). A verdade é nossa principal preocupação. Por esse motivo, a empresa não pode alterar ou remover as avaliações realizadas.” O negrito é por minha conta.

 Chama-me muito a atenção que este grande portal (idem) parta do princípio de que a verdade está apenas do lado do empregado e que a empresa seja sempre a vilã – uma visão retrógrada, de 1943, época da CLT e da hipossuficiência ainda defendida pelos sindicatos que mais estão preocupados com vantagens políticas do que com a proteção do trabalhador.

 Além disso, o anonimato não contribui para uma educação civil na qual o cidadão, o indivíduo, assume a responsabilidade por tudo o que se fala – ainda que seja uma crítica ou uma denúncia.

 Aqui na nossa empresa (idem) nós falamos sobre qualquer assunto, inclusive os que são considerados tabus. Praticamos nossos valores no dia-a-dia, mas não pretendemos ser perfeitos, tampouco viver num mundo utópico. Não vamos agradar a todos – e nem queremos. Temos os nossos princípios e as nossas premissas de trabalho, que são claras para todos, sempre com o respeito e a dignidade em primeiro lugar. Em uma eventual saída de um profissional, voluntária ou não, é natural que haja ressentimentos e pontos de discordância – e queremos saber sempre, para que possamos evoluir.

Por isso, dispomos de ferramentas de avaliação, feedback contínuo, pesquisas internas e entrevista de desligamento muito bem conduzida, por sinal. Atualmente, 100% dos meus desligamentos voluntários são realizados por 2 motivos: melhor proposta salarial (que eu não posso cobrir) ou entrada em sua própria área de atuação (exemplo, a recepcionista que estuda jornalismo).

 Além disso, 95% dos meus desligamentos involuntários, ou seja, provocados pelo empregador, não são uma surpresa: os meus profissionais agradecem, inclusive, a maneira com que são tratados no fim de nosso relacionamento. Porque, no fundo, é isso que é: um relacionamento.

 E, como todo relacionamento, há várias verdades.

 Portanto, não aceito a roupa compulsória de vilã da história, simplesmente acatando tudo o que as pessoas quiserem escrever a meu respeito como empregadora. Vocês também não deveriam aceitar, muito menos estimular. Desse jeito, vocês não ajudam a melhorar o nosso país e nem a desenvolver uma visão crítica das coisas: vocês estimulam o “nós” e “eles”, sempre um embate, colocando os profissionais como os coitados do enredo. E, depois de 15 anos nessa área, posso lhes contar algo com propriedade: tem muita empresa boa e muita empresa ruim. E tem muito profissional bom… e muito profissional complicado por aí. Mágoas não resolvidas levam a ações de retaliação e não são, necessariamente, verdades.

 Portanto, não há como falar em verdade quando não se conhece o contexto. O mínimo, o justo, seria dar um espaço para que a empresa se posicionasse e, veja, não quero editar e nem apagar nada, que fique bem claro. É uma sugestão. Acompanhada, obviamente, da esperança de ver uma plataforma deste gabarito, um dia, posicionar-se contra o anonimato.

 Relacionar-se com quem não se conhece é um perigo. Vocês deveriam saber.”

E é isso. Fiquei indignada em ver chamadas do tipo “faça uma avaliação anônima e AJUDE outros profissionais” (destaque também por minha conta).

Porque NÃO, postar reclamações/ofensas gratuitas não é ajudar. Porque NÃO, conhecer um lado só não é ajudar, ainda que o relato seja positivo. É por atitudes populistas como essas que fica cada vez mais difícil nos educar para tratar as questões com base no DIÁLOGO e não na agressão mútua.

Porque SIM – dar espaço para a crítica dessa forma irresponsável é ser conivente com certos tipos de agressividade.

E não, eu não sou o Lobo-mau. Pelo menos não sempre 😉

Anúncios

2 pensamentos sobre “Uma ameaça chamada Anonimato

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s